A NOBRE MISSÃO DO ELEITOR

Mais uma vez o cidadão está sendo colocado à prova, obrigado a escolher, nas eleições municipais de 2020, os candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereadores. Uma verdadeira provação. Todavia, como na passagem de Mateus 13:24-30, é hora de separar o joio do trigo. Se seguíssemos o sonho romano, que ao instituir a figura do Senado – o qual a finalidade não corresponde ao nosso senado atual – era visto como uma casa da elite, composta por sábios, em que ali estavam os melhores, talvez estivéssemos vivendo dias melhores na política. Mas isso seria prosseguir com uma utopia.

E o que é política? O filósofo Aristóteles definiu como “a mais importante das ciências”. É natural que os homens vivam de forma política, por se tratar de uma nobre atividade na qual alguns decidem as regras pelas quais viverão e os objetivos que querem buscar coletivamente. A teoria diz que deveríamos eleger apenas candidatos preparados para comandar a máquina pública e o legislativo municipal, porém continuamos no mundo dos sonhos, pois a realidade é bem diferente.

Então surge a seguinte indagação: qual a lógica de um candidato gastar em uma campanha o absurdo de mais de R$ 5 milhões de reais? Este foi o valor gasto pelo prefeito de Manaus/AM, eleito em 2016. Cabe destacar ainda que o subsídio (salário) recebido por um prefeito em média é de R$ 18.000,00 (capital) e R$ 15.000,00 (interior) e de um vereador é em média R$ 15.000,00 (capital). Ou seja, durante um mandato de 04 (quatro) anos, perfaz-se a soma de R$ 864.000,00 e R$ 720.000,00, respectivamente. Estamos falando dos valores brutos, sem os descontos oficiais.

A resposta é simples: os candidatos são financiados para, se eleitos, cumprirem uma missão, sendo ela democrática ou não. O cenário até as eleições de 2014 era de campanhas eleitorais financiadas por recursos privados, sejam doações empresarias, recursos dos próprios candidatos ou de outras pessoas físicas. Os escândalos de corrupção deixaram claros que as empresas não financiavam as campanhas, apenas emprestavam o dinheiro, o qual era devolvido pelo político após eleições por meio de contratos superfaturados. Agiotagem legalizada. Com as alterações legislativas, foram criados fundos públicos – Fundo Partidário e o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) – para as eleições e proibido o financiamento empresarial. Portanto, agora somos nós, os pagadores de tributos, quem bancamos as eleições de políticos corruptos.

Mais surpreendente ainda é quando se faz uma comparação entre as declarações de bens de uma eleição para a outra de alguns candidatos. É facilmente perceptível um crescimento patrimonial desproporcional ao salário, ou seja, alguns quando eleitos se tornam gênios dos investimentos. Qual seria a mágica? Como diz o ditado: “O Brasil não é para os fracos nem para amadores”. O poder é viciante e causa dependência desde o primeiro contato.

As eleições passadas foram marcadas pela proliferação de discursos de renovação política por parte de candidatos com pouco ou nenhum passado na política. O tempo está demonstrando os erros e acertos de termos os elegidos. E faz também refletir como será hercúlea a luta para escolher bons candidatos nestas eleições municipais.

Atravessamos mudanças no comportamento do eleitor e da população em geral, muito por conta da facilidade de informações trazidas pela internet e redes sociais. Num passado não muito longínquo, o povo discutia apenas futebol e novela. Agora, diariamente se discute projetos de lei e indicações de Ministros ao STF –  hoje, o cidadão sabe dizer o nome de todos os Ministros e não mais apenas dos jogadores que foram escalados para jogar na seleção brasileira de futebol.

Portanto, a depuração política deve ser contínua. Quem sabe um dia teremos políticos servindo à população, sendo tratados como servidores públicos e não como “deuses”. Apresentar-se como representante do Presidente da República, tirar fotos e fazer vídeos em Brasília com diversas autoridades não é certeza de capacidade administrativa.

Das histórias contadas por Plutarco mostrando a decadência de Esparta, o filósofo grego cita Coriolano, um militar que busca a qualquer custo virar político sem ter muito traquejo para o trato político. Mesmo assim, tornou-se famoso, mas sua mãe – que era um gênio político – era quem coordenava sua vida política. Apesar da distância temporal, as obras de Plutarco permanecem como uma fonte de aprendizado para os dias atuais, dado o panorama político apresentado, em que candidatos seguem coordenadas dos “donos” dos partidos.

Então vamos deixar de sonhar! Nessas eleições, cabe aos eleitores, primeiramente, identificar e pôr à parte os políticos falastrões e despreparados, que são financiados pela velha política ou são marionetes do sistema corrompido. As redes sociais ajudam bastante a analisar propostas dos candidatos, se são relevantes à população, quais opiniões sobre temas importantes ao Município e a verificar se são fichas limpas. Isso ajuda você, caro (e)leitor, a apostar seu voto no candidato disposto a enfrentar o desafio da verdadeira mudança na política: exercer um mandato para o povo e não para seus interesses próprios e assumir a responsabilidade de alterar as engrenagens que operam o sistema corrompido.

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